Abriu a porta, sala escura. Foi até o quarto, casa vazia. Abriu
os presentes que ganhou, apressou-se em mostrá-los a alguém – lembrou-se que
não havia ninguém por ali.
Foi à cozinha, preparou o prato e o copo. Com a refeição em mãos
foi para a sala. Vendo filme começou a lembrar de como o ano havia sido.
Sentiu-se reduzido pela metade, como se tivesse se dado tanto a ponto de
esquecer de guarda-se para si próprio. Sentiu-se pequeno, inútil.
Ameaçou levantar-se e ir ao sub-solo, preferiu ficar no sofá,
deitado onde tantas companhias já haviam sentado, mas que agora era só mais um
lugar no sofá.
Sentia-se só, sem motivos. Não sabia seus porquês de estar ali.
Cansado das coisas de sempre, não se sentia preparado pra continuar a ser o que
era, quis largar tudo, escolher de vez – afinal, quem era ele
nas múltiplas faces que tinha?
Era natal, foi dormir cedo. Não havia ceia, nem aquela magia das
outras casas.
Os dias passaram. Dois ou três, não se sabe – ele havia perdido
as contas e, no fundo, era indiferente. Tudo igual: acordar tarde e mofar o
restante do dia. Dormir, acordar, dormir mais um pouco… Ao mesmo tempo que
vivia uma monotonia, por dentro borbulhava inquietude – e isso o incomodava,
sem saber como arrumar tudo isso.
Foi quando algo o despertou: “o gato bebe leite, o rato come
queijo e eu sou palhaço” – dizia a frase. E entendeu que deveria ser aquilo que
era, havia nascido pra aquilo – e no fundo, aquele hábito formara seu caráter.
Talvez mude muito, talvez mude pouco. Talvez nada mude. Agora,
porém, ele sabe que está onde deveria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário