terça-feira, 12 de agosto de 2014

Scrooge, Fantasmas de

Abriu a porta, sala escura. Foi até o quarto, casa vazia. Abriu os presentes que ganhou, apressou-se em mostrá-los a alguém – lembrou-se que não havia ninguém por ali.
Foi à cozinha, preparou o prato e o copo. Com a refeição em mãos foi para a sala. Vendo filme começou a lembrar de como o ano havia sido. Sentiu-se reduzido pela metade, como se tivesse se dado tanto a ponto de esquecer de guarda-se para si próprio. Sentiu-se pequeno, inútil.
Ameaçou levantar-se e ir ao sub-solo, preferiu ficar no sofá, deitado onde tantas companhias já haviam sentado, mas que agora era só mais um lugar no sofá.
Sentia-se só, sem motivos. Não sabia seus porquês de estar ali. Cansado das coisas de sempre, não se sentia preparado pra continuar a ser o que era, quis largar tudo, escolher de vez – afinal, quem era ele nas múltiplas faces que tinha?
Era natal, foi dormir cedo. Não havia ceia, nem aquela magia das outras casas.
Os dias passaram. Dois ou três, não se sabe – ele havia perdido as contas e, no fundo, era indiferente. Tudo igual: acordar tarde e mofar o restante do dia. Dormir, acordar, dormir mais um pouco… Ao mesmo tempo que vivia uma monotonia, por dentro borbulhava inquietude – e isso o incomodava, sem saber como arrumar tudo isso.
Foi quando algo o despertou: “o gato bebe leite, o rato come queijo e eu sou palhaço” – dizia a frase. E entendeu que deveria ser aquilo que era, havia nascido pra aquilo – e no fundo, aquele hábito formara seu caráter.
Talvez mude muito, talvez mude pouco. Talvez nada mude. Agora, porém, ele sabe que está onde deveria.